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segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Bibliotecas sediam encontros com autores


Projeto “Escritor na Biblioteca” retorna às unidades como programa permanente a partir de 2011; edições piloto serão realizadas em várias bibliotecas até o final deste ano

São Paulo - Secretaria Municipal de Cultura



A partir de sexta-feira (17/09), 34 bibliotecas públicas e o Centro Cultural da Juventude Ruth Cardoso recebem a visita de 11 escritores para um bate-papo com o público. A atividade gratuita batizada de “Escritor na Biblioteca” começou a ser realizada na década de 1980 e, com algumas interrupções, atravessou os anos servindo de ação de incentivo à leitura.

Até o final do ano, o projeto funcionará com edições piloto. O objetivo é que se torne evento permanente a partir do ano que vem.

A abertura acontece na Biblioteca Alceu Amoroso Lima, dia 16, às 18h, com uma mesa-redonda intitulada Literatura e Cotidiano com a presença dos escritores Heloísa Prieto e Marcelino Freire, que terá mediação de Márcia Wada. Em seguida, ocorre a apresentação litero-musical Cantos Negreiros, com Marcelino Freire e a cantora Fabiana Cozza.

O grupo de escritores que participam dos bate-papos nesse mês é formado por Marcelino Freire, Kátia Canton, Eva Furnari, Xico Sá, Laudo Ferreira Jr., Heloísa Prieto, Daniel Munduruku, Rodrigo Garcia Lopes, Ricardo Azevedo, Cláudio Daniel e Sandra Pêra.

Confira a programação, aqui!


Link



segunda-feira, 7 de junho de 2010

O escritor Luiz Ruffato será o nosso próximo entrevistado


Luiz Ruffato nasceu em Cataguases, Minas Gerais, em 1961. De acordo com ele mesmo, já foi "pipoqueiro, caixeiro de botequim, balconista de armarinho, operário têxtil, torneiro mecânico, jornalista, sócio de assessoria de imprensa, gerente de lanchonete, vendendor de livros autônomo e novamente jornalista". Formado em Comunicação pela Universidade Federal de Juiz de Fora, publicou vários livros, entre os quais a série Inferno Provisório e o aclamado Eles eram muito cavalos, traduzido para o francês, o italiano e o espanhol e ganhador dos prêmios APCA e Machado de Assis.
(Texto extraído de Estive em Lisboa e lembrei de você, último livro de Ruffato)
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Convidamos a todos os profissionais, amadores, amantes e entusiastas da leitura a tomarem parte nessa conversa. Enviem suas perguntas e sugestões para o e-mail do blog (ecoleitura@gmail.com) ou cliquem no botão "comentários" na barra inferior.

A palavra é sua e o texto será de todos!

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Entrevista com Lucila Pastorello, consultora e assessora de ações de incentivo à leitura


Mestre em Semiótica e Linguística Geral pela USP, a fonoaudióloga Lucila Pastorello acaba de concluir o doutorado, com a tese "Leitura em voz alta e a apropriação da escrita pela criança", na mesma universidade. Além de clinicar, Lucila desenvolve projetos de assessoria em linguagem para programas de incentivo à leitura e recentemente estruturou, com uma amiga, a Cia. de Leitores Públicos, que reúne pessoas interessadas em leitura em voz alta e transmissão de textos literários.

Junto ao Ecofuturo, a pesquisadora ministrou oficinas Brincar de Ler para professores e educadores e também na Penitenciária de Santana, Zona Norte de São Paulo. Além disso, assina o artigo "Porque sim não é resposta: 7 bons motivos para ler para crianças pequenas", do livro A vida que a gente quer depende do que a gente faz.

Em entrevista exclusiva para o Instituto Ecofuturo, além de esclarecer a diferença entre contação de histórias e leitura em voz alta, Lucila propõe esta modalidade de leitura como uma prática interativa que não substitui a leitura silenciosa nem a contação de histórias: "Não se trata de suprir, mas de ofertar". A pesquisadora fala ainda dos desafios de incorporar esses temas à formação dos educadores no Brasil e atribui a intolerência para com os erros da criança em fase de alfabetização à crença de que a escrita e a leitura são habilidades cognitivas e não culturais. "Suportamos toda a inabilidade das crianças no aprendizado da fala e não suportamos o erro da leitura". Ao nos depararmos com a força e a clareza do pensamento de Lucila sobre essas práticas, é inevitável que nos questionemos sobre nossa responsabilidade para com a disseminação da leitura, essa "expressão de afeto e cuidado", uma vez que ultrapassam o papel que comumente atribuímos à escola.
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Instituto Ecofuturo: Qual a diferença entre ler e contar?
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Lucila Pastorello: Em primeiro lugar é importante que fique claro que ambas as práticas, tanto contar histórias quanto ler em voz alta, são muito interessantes para o desenvolvimento da linguagem oral e escrita. Cada uma destas práticas tem suas características especiais e não devemos pensar em hierarquizá-las: não há uma melhor do que a outra, há efeitos e usos diferentes. Contar histórias faz parte daquilo que chamamos de Tradição Oral da Cultura; é uma forma muito, muito antiga de transmitir experiências e valores sociais, morais e éticos de geração para geração, através dos tempos, de boca a boca; a prática de contar histórias é muito mais antiga do que a prática da leitura, já que esta última está ligada à invenção da escrita. Quem conta a história normalmente faz algumas adaptações, muda um pouquinho aqui e um pouco lá (na boca do povo: “quem conta um conto aumenta um ponto”). Ao contar uma história podemos ainda usar acessórios que nos ajudem a transmitir o texto, como música, roupas e outros objetos. Além disso, a história pode ou não ter sido escrita; às vezes contamos histórias que ouvimos, mas que não estão escritas, e é aí que reside o valor insubstituível desta prática. Mesmo se contarmos histórias que vieram de um livro, no momento da contação não é necessário que o material escrito esteja presente, já que o que interessa mesmo é a história, a narrativa. Com a leitura a coisa é um pouco diferente. Um professor e pesquisador da USP, o Claudemir Belintane, que orientou meus estudos de doutorado, costuma dizer que na leitura há uma lei-dura. Não dá para adaptar, inventar; o leitor deve ler aquilo que está escrito, já que uma das funções da escrita é registrar um texto, em seu conteúdo e sua forma. Ao lermos em voz alta o texto escrito está presente, o que cria uma triangulação na situação: a escrita, o leitor e aquele que escuta e observa a leitura. Esta triangulação é essencial para trabalharmos o desejo pela leitura e pela escrita.
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Ecofuturo: Qual a mensagem para educadores e promotores de leitura sobre a importância de ampliar as ações de leitura em voz alta em vez de contar histórias?
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Pastorello: Olha lá, exatamente o que comecei a falar na pergunta anterior: seria ótimo se deixássemos de lado o “em vez de”.... Por que não “além de”? Se a ideia é promoção de leitura é claro que ler em voz alta é a prática mais indicada, pois a presença do escrito (do livro, por exemplo) na atividade faz com que aqueles que ouvem e veem (crianças, normalmente, mas funciona com adultos também) fiquem interessados em saber de onde vem as palavras, a história que envolvem a todos na voz do leitor. A criança vê o leitor vendo o escrito. O leitor, por sua vez, tem um compromisso com o texto escrito e com os ouvintes: ele testemunha a língua, está sujeito às leis da escrita, mas ao mesmo tempo pode deixar sua marca interpretativa com sua voz, fazendo o texto passar por seu corpo e atingir o corpo dos outros. Mas nada impede de pensarmos em práticas que associem a contação de histórias e a leitura em voz alta, desde que sejam oferecidas e entendidas em suas particularidades.

Ecofuturo: Contar histórias para crianças faz bem. Isso parece ser consenso desde tempos imemoriais, mas a importância de ler para crianças pequenas parece ser novidade entre nós – ao menos no que diz respeito à diferença entre contar histórias e ler para os pequeninos. O seu trabalho tem enfatizado muito esse aspecto. Quando tomamos consciência disso, no Brasil, e por que você direcionou suas pesquisas nesse sentido?

Pastorello: Acredito que ainda estamos tomando consciência disso no Brasil. Contar histórias tem sido uma prática mais intensiva justamente por conta de suas características: liberdade para criar, resgate de elementos da cultura popular e arrebatamento do espectador através de uma cena dramática, muito próxima do teatro. Ao mesmo tempo, a leitura em voz alta pode algumas vezes servir para normatizar preceitos e condutas morais, através de um discurso pronto e que deve ser repetido sempre da mesma forma, para evitar riscos de uma interpretação diferente da desejada. É o que acontece normalmente nos cultos religiosos e muitas vezes na escola que está a serviço a transmitir conceitos políticos-ideológicos (o que aconteceu no Brasil, nos anos de regime militar, mas também em outros países como o Itália, durante o regime fascista, como nos lembra Umberto Eco). A questão aí não é leitura em voz alta, mas o próprio conceito que se tem de leitura e o uso que se faz dela. Se pensarmos que ler é transformar material gráfico em material sonoro, aí pensaremos que existe uma “leitura certa” e uma “errada”. Mas se considerarmos que ler é produzir sentidos, a leitura em voz alta passa também a ser uma forma de singularizar o discurso, de oferecer aos outros a sua leitura particular. Na atualidade e no Brasil, quando falamos aos professores sobre leitura em voz alta, é comum percebermos a associação com o controle, com a avaliação e não com a fruição do texto e a criação de sentidos interpretativos. Esta associação pode ser motivada pelo uso autoritário e normativo da leitura. Contudo, em minhas pesquisas, vejo que o acesso ao escrito desde a tenra infância é uma prática habitual em países considerados mais “letrados”, como é o caso da França do Canadá, por exemplo. É importante pensar a leitura como uma via de acesso ao mundo e ao gozo da cidadania plena. Ler escritores brasileiros é uma bela e boa maneira de inserir a criança no mundo das letras e das diversidades linguitico-culturais de nosso país e formar cidadãos críticos e criativos.

Ecofuturo: Os educadores, de modo geral, estão a par dessas sutilezas e preparados para orientar suas práticas a partir disso?

Pastorello: É leviano fazer generalizações, mas o que eu tenho ouvido, particularmente da boca de educadores, é que não existe uma discussão particular sobre o assunto na formação profissional. Mas, em minha experiência, eles estão ávidos por informação de qualidade que possam modificar suas práticas! Quando ministrei as oficinas “Brincar de ler”, promovidas pela Ecofuturo, ficou claro que educadores e promotores de leitura interessam-se e beneficiam-se de uma formação sobre leitura e, mais especificamente, sobre leitura em voz alta. É urgente dar continuidade a este tipo de formação.

Ecofuturo: Em que momento devemos, além de ler para crianças, passar a ler com elas?

Pastorello: Bom, em primeiro lugar podemos ler com as crianças desde muito cedo; antes de serem alfabetizadas, as crianças podem “ler as imagens” enquanto você lê o escrito (a leitura imagética é uma forma interessante e importante de acesso ao sentido de um texto). Ao poucos, à medida que a criança caminha em seu processo de alfabetização, podemos variar os papéis, inventar outros. Ler para o outro é uma expressão de afeto e cuidado. E para pensar: até que idade queremos ser cuidados? Alberto Manguel, um importante escritor e pesquisador argentino, descobriu a potência da leitura em voz lendo para um grande escritor argentino, Jorge Luis Borges, que estava perdendo a visão, mas não o desejo de ler. A partir daí Manguel passou a incorporar a leitura em voz alta como uma prática interativa: passou a ler em voz alta em casa, com sua companheira. Em alguns países como na França e em Portugal, atualmente, existem sessões de leitura em voz alta abertas ao público: a leitura em voz alta é uma oferta e não uma necessariamente uma alternativa a cegos e analfabetos. Acredito que podemos caminhar nessa direção.

Ecofuturo: Ler para crianças plenamente alfabetizadas é ainda importante ou já é hora de mudarmos de estratégia para que passem a ler por si mesmas? Como se faz essa transição, se é que se trata disso?

Pastorello: Acho que já respondi um pouco desta questão, mas não custa insistir: ler em voz alta não substitui a leitura silenciosa e nem a contação de histórias; não se trata de suprir, mas de ofertar. A transição, falando especificamente em pessoas em processo de alfabetização, se dá naturalmente quando há desejo pelo escrito, quando o não - leitor inveja o leitor e se lança no árduo caminho de ser letrado.A leitura em voz alta é uma oferta, um presente para o futuro. Ler para o outro é sempre importante, ainda mais tratando-se de um leitor em formação. Devemos lembrar que a alfabetização é o domínio de uma técnica, mas a formação de um leitor leva anos (quantos anos? Provavelmente a vida!!). Parar de presentear as crianças quando elas se alfabetizam, me parece mais um tipo de punição.....por ter aprendido a ler. Não é um pouco estranho?

Ecofuturo: A quem compete orientar pais e responsáveis sobre a importância de ler para crianças desde o estágio uterino, por exemplo?

Pastorello: Esta é uma pergunta que tem várias possibilidades de resposta. Naturalmente os agentes de saúde e de educação são os responsáveis, digamos, “oficiais” por este tipo de transmissão. Então estamos pensando em todo profissional ligado direta ou indiretamente à responsabilidade de educar e promover saúde, que seriam, de modo geral, os médicos, professores, enfermeiros, fonoaudiólogos, pedagogos...(Percebam que faço uma ligação da leitura com a saúde, mas este é outro tema...). Por outro lado, transmitir cultura e promover cidadania deve ser função de todos nós: espalhando informações, testemunhando vivências... praticando!

Ecofuturo: Você entende a leitura como “uma prática social”, “um modo de estar no mundo” – o que diferenciaria ser alfabetizado de ser leitor. Por outro lado, estamos numa época de grande disseminação da informação, em que somos exortados o tempo todo a pôr em prática a leitura, tanto como decodificação da palavra quanto como modo de estar no mundo. Em vista disso, é inevitável que outras instâncias sociais se aliem às escolas para dar conta da formação do leitor?

Pastorello: Sem dúvida alguma. É imprescindível que todas as esferas da sociedade participem ativamente do letramento em nosso país. Orientar a conduta do outro, normalmente diz respeito a um profissional que tem conhecimento e autoridade para fazê-lo. Mas, se pensarmos de maneira ampliada, testemunhar os efeitos de ler em voz alta pode ser uma função de todos nós: educar não é exclusividade da escola. Este modo de pensar faz com que todos nós tomemos a responsabilidade de transmitir valores. Vivemos em uma cultura letrada, e transmitir o acesso à leitura e escrita é responsabilidade de todos. Então, é preciso criar novos espaços de ler em voz alta, alternativos às práticas pedagógicas atuais. Qualquer espaço social, público ou privado, deve ser considerado como um potencialmente interessante para a transmissão da leitura.

Ecofuturo: A professora Elizabeth Caldas de Almeida, do Rio de Janeiro, enviou-nos a seguinte pergunta pelo blog do Dia Nacional da Leitura: “Gosto de pedir a meus alunos para lerem em voz alta. Muitos resistem, mas explico que não há problemas em errarem ou gaguejarem na leitura, pois a escola é lugar de errar e aprender, e que na sala eles têm todo o direito de errar – e nem sempre isso acontece na sociedade. Mas já ouvi muitos colegas e especialistas dizerem que é antididático. Qual a sua opinião?”.

Pastorello: Esta é uma questão recorrente entre os educadores. O ponto central para dissolver os equívocos está exatamente na função e uso que se toma a leitura em voz alta. Vamos pensar: ler é uma habilidade que se conquista. Quando eu digo que ler é uma prática social, estou salientando o fato que aprendemos a ler com os outros. Todas as nossas conquistas sociais são determinadas pela relação com as outras pessoas. A criança vai aprender a andar, comer com talheres, falar, se comportar e apropriar-se de toda nossa cultura a partir de sua prática e na relação com os outros, não é mesmo? Com a leitura é a mesma coisa. Todos nós caímos ao começar a andar, derrubamos comida ao aprender a comer, erramos ao aprender a falar e erramos e gaguejamos ao aprender a ler. O problema é que suportamos toda a inabilidade das crianças no aprendizado da fala e não suportamos o erro na leitura. É algo que nos faz pensar... Talvez a origem desta confusão esteja na forma com que as crianças entram em contato com a escrita (não com a alfabetização, por favor), tardiamente. Absolutamente não defendo a alfabetização precoce, mas sim a inserção da criança no mundo das letras desde sempre, pela voz do outro. É antididático deixar uma criança ler como pode? É aintididático deixar a criança falar como consegue? Ou seria melhor não deixar a criança que fala errado, ou que não ainda não aprendeu a falar direito, isolada das outras crianças, porque ela não é um bom modelo? Tudo isso tem relação, mais uma vez, com a crença de que a escrita e a leitura são habilidades cognitivas e não culturais. Mas é preciso mudar este pensamento . E lembrar que: ler se aprende lendo; escrever se aprende escrevendo, da mesma forma que falar, falando, andar, tropeçando. A tolerância que se tem sobre o aprendizado da leitura está fortemente ligada àquilo que entendemos como função e uso da leitura.

Ecofuturo: Lucila, dê-nos uma boa notícia em relação ao incentivo à leitura. A que você se dedica no momento?

Pastorello: Com a conclusão do doutorado, estou me dedicando a divulgar a leitura em voz alta como prática social e cultural, buscando novos espaços para a formação de leitores e apresentação de leitura públicas. Durante a primavera de livros, organizada em 2006 pelo Instituto Ecofuturo, tive a oportunidade de conhecer dois leitores públicos franceses, Marc Roger e Jean Guiet . Em 2007 fui a Paris realizar um estágio de formação e pesquisa com eles (como parte do Doutorado), na Associação Francesa de Leitores Públicos. Voltei de lá com material para minha tese, uma certeza e um desejo: trabalhar com leitura pública no Brasil! Atualmente, concentro minhas atividades na clínica, como fonoaudióloga e no desenvolvimento da Companhia de Leitores Públicos (http://www.leitorespublicos.com.br/), que tem como objetivo reunir pessoas interessadas em pesquisar e discutir os efeitos da leitura em voz alta, bem como estruturar projetos de promoção da leitura, organizar apresentações públicas de leitura em voz alta e formar leitores públicos, que possam multiplicar esta prática, de usar a voz para letrar.

Ecofuturo: No texto coletivo que enviaremos ao Senado Federal, no final do ano, sua palavra não pode faltar. Por favor, diga para nós o que você considera imprescindível de ser amplamente oferecido como política pública de promoção de leitura.

Pastorello: Considero urgente que se invista na formação de educadores, especialmente nas fases iniciais da escolarização – educação infantil e primeiros anos do ensino fundamental. Estes primeiros anos são determinantes para que se possa trabalhar o enlace da criança pelas letras, já que o afeto é um aspecto evidente nas crianças pequenas. Desde cedo a criança deve ser afetada pelas letras! É preciso que possamos contar com professores conscientes das funções social, cultural e subjetivante da leitura, e principalmente: precisamos de professores que sejam verdadeiramente leitores. Em outras palavras, o professor deve transmitir o desejo pela leitura, a partir de sua própria experiência com a escrita: para ter pleno acesso à cidadania é preciso ao mesmo tempo respeitar as regras da língua e da escrita, mas assumir uma postura crítica e criativa frente ao escrito. Só assim poderemos usufruir, todos, do potencial transformador da leitura. Ainda: criar novos espaços e práticas para a leitura, descolando-a da escola e valorizando sua dimensão cultural é uma ideia que deve ser considerada em políticas publicas de incentivo à leitura: ler não é coisa de escola, é coisa da vida!

Contato: lucila@leitorespublicos.com.br

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Escritor Luiz Mendes no Programa Entrelinhas da TV Cultura

Programa Entrelinhas, com Luiz Mendes, irá ao ar dia 11/04 – domingo - às 21h30, na TV Cultura.

Luiz Mendes é escritor autodidata. Publicou três livros: Memórias de um sobrevivente,Cela forte e Às cegas. É também colunista da revista Trip e consultor de projetos culturais destinados à população carcerária, como a biblioteca que o Ecofuturo implantou na penitenciária de Bauru, a PII, com endosso da Fundação Mandela. Incansável propagador da tese de que só a boa oferta de cultura pode desconstruir a cultura do crime, Luiz Mendes é exemplo vivo de quem procurou uma saída possível em meio à descida ao inferno: cumpriu pena de 31 anos e ressignificou sua vida por intermédio da literatura.

Veja o que já postamos sobre o escritor neste blog:

- Educação em presídios: por que é importante

-Mona Dorf entrevista Luiz Alberto Mendes

quinta-feira, 25 de março de 2010

quinta-feira, 18 de março de 2010

Lucila Pastorello será nossa entrevistada na próxima semana!


Mestre em Semiótica e Linguística Geral pela USP, a fonoaudióloga Lucila Pastorello acaba de concluir o doutorado, com a tese "Leitura em voz alta e a apropriação da escrita pela criança", na mesma universidade. Além de clinicar, Lucila desenvolve projetos de assessoria em linguagem para programas de incentivo à leitura e recentemente estruturou, com uma amiga, a Cia. de Leitores Públicos, que reúne pessoas interessadas em leitura em voz alta e transmissão de textos literários.

Junto ao Ecofuturo, a pesquisadora ministrou oficinas Brincar de Ler para professores e educadores e também na Penitenciária de Santana, Zona Norte de São Paulo. Além disso, assina o artigo "Porque sim não é resposta: 7 bons motivos para ler para crianças pequenas", do livro A vida que a gente quer depende do que a gente faz. (Trechos do artigo podem ser lidos aqui)

Na próxima semana Lucila será a nossa entrevistada, intensificando o debate proposto pelo Movimento Nacional pela Leitura, iniciativa do Instituto Ecofuturo.
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Convidamos a todos os profissionais, amadores, amantes e entusiastas da leitura a tomarem parte nessa conversa. Enviem suas perguntas e sugestões para o e-mail do blog (ecoleitura@gmail.com) ou cliquem no botão "comentários" na barra inferior.
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A palavra é sua e o texto será de todos!
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terça-feira, 16 de março de 2010

'Eletrônicos duram 10 anos; livros, 5 séculos', diz Umberto Eco

O Estado de S. Paulo - 13/03/2010 - Por Ubiratan Brasil

O bom humor parece ser a principal característica do semiólogo, ensaísta e escritor italiano Umberto Eco. Se não, é a mais evidente. Ao pasmado visitante, boquiaberto diante de sua coleção de 30 mil volumes guardados em seu escritório/residência em Milão, ele tem duas respostas prontas quando é indagado se leu toda aquela vastidão de papel. "Não. Esses livros são apenas os que devo ler na semana que vem. Os que já li estão na universidade" - é a sua preferida. "Não li nenhum", começa a segunda. "Se não, por que os guardaria?" Na verdade, a coleção é maior, beira os 50 mil volumes, pois os demais estão em outra casa, no interior da Itália. E é justamente tal paixão pela obra em papel que convenceu Eco a aceitar o convite de Jean-Phillippe de Tonac para, ao lado de outro incorrigível bibliófilo, o escritor e roteirista Jean-Claude Carrière, discutir a perenidade do livro tradicional. Foram esses encontros que resultaram em Não Contem Com o Fim do Livro, que a Record lança em abril. A conclusão é óbvia: tal qual a roda, o livro é uma invenção consolidada, a ponto de as revoluções tecnológicas, anunciadas ou temidas, não terem como detê-lo. Leia a entrevista ao Sabático, o novo suplemento cultural do jornal de O Estado de S. Paulo, em que Eco fala sobre preservação da memória, biblioteca X internet, Dan Brown, suas lembranças do Brasil e muito mais.

Leia entrevista na íntegra, AQUI.

sexta-feira, 12 de março de 2010

O papel da leitura em regiões de conflito e pobreza

Guilherme Freitas - Prosa Online - 20/02/2010

A antropóloga francesa Michèle Petit fala de experiências desenvolvidas por mediadores de leitura em "espaços em crise" - locais afetados por confrontos armados, catástrofes naturais, pobreza - sobretudo na América Latina. Nestas situações, sugere: "Mais importante que a interpretação do texto é o encontro ao redor do livro: a leitura funciona como um catalisador para discussões em grupo sobre questões (pessoais ou coletivas) despertadas pelas obras".

O papel da leitura em regiões de conflito e pobreza
Guilherme Freitas - Prosa Online - 20/02/2010

Numa das muitas histórias sobre grupos de leitura em regiões em conflito reunidas em "A arte de ler" (editora 34, tradução de Arthur Bueno e Camila Boldrini, R$ 42), a antropóloga francesa Michèle Petit conta o caso dos bibliotecários da Comuna 13, um conjunto de bairros pobres na periferia de Medellín. No fogo cruzado entre guerrilheiros das FARC e paramilitares colombianos, a biblioteca se transformou em ponto de encontro (e, muitas vezes, em abrigo) para jovens da vizinhança, que encontravam nas atividades promovidas pelos funcionários e nos livros disponíveis nas estantes um refúgio momentâneo para a brutalidade da rotina.

A história pode sugerir uma visão um tanto romântica da cultura como antídoto para a barbárie (impressão reforçada pelo subtítulo do livro, "Como resistir à adversidade"), mas Michèle Petit argumenta, em entrevista ao GLOBO, que o trabalho de pessoas como os bibliotecários de Medellín nada tem de ingênuo: "eles sabem que a literatura não vai reparar as violências ou as desigualdades do mundo, mas observam que ela oferece um apoio notável para colocar o pensamento em ação, para provocar o autoquestionamento, suscitar um desejo, uma busca por outra coisa", diz.

"A arte de ler" relata experiências desenvolvidas por mediadores de leitura em "espaços em crise" — locais afetados por confrontos armados, catástrofes naturais, pobreza e migrações forçadas — em diversas regiões, mas sobretudo na América Latina (inclusive no Brasil). Nestas situações, sugere a autora, mais importante que a interpretação do texto é o encontro ao redor do livro: a leitura funciona como um catalisador para discussões em grupo sobre questões (pessoais ou coletivas) despertadas pelas obras.

Autora de "Os jovens e a leitura" (publicado também pela editora 34), no qual reflete sobre os desafios da tão debatida "formação de leitores", Michèle critica nesta entrevista a forma como o tema costuma ser abordado ("Certos discursos de glorificação da leitura dão vontade de jogar videogame!", brinca) e defende que as situações extremas relatadas em "A arte de ler" podem inspirar novas abordagens para a difusão da leitura.

"A arte de ler" fala de experiências de leitura em locais que a senhora chama de “espaços em crise”, sobretudo na América Latina. Por que escolheu esses lugares e que tipo de atividade encontrou neles?

MICHÈLE PETIT: Há muito tempo observa-se que a leitura ajuda a resistir às adversidades, mesmo nos contextos mais terríveis. Mas a maior parte daqueles que deram testemunho disso estavam imersos desde a infância na cultura escrita. As experiências que me interessaram na América Latina reúnem crianças, adolescentes ou adultos com pouca escolaridade, vindos de famílias pobres, que cresceram longe dos livros. Por exemplo: na Colômbia, jovens saídos da guerrilha ou de grupos paramilitares, toxicômanos, soldados feridos, populações desalojadas; na Argentina, mães de crianças pequenas em situação de extrema pobreza, jovens que sofreram abusos ou vítimas de catástrofes naturais. Essas experiências literárias compartilhadas se desenrolam em espaços de liberdade, sem registros escritos nem controle de presença, sem preocupação com rendimento escolar imediato nem resultados em termos quantitativos. O dispositivo é aparentemente muito simples: um mediador propõe suportes escritos a pessoas que não estão acostumadas a eles, lê alguns em voz alta, e então um relato ou um debate surgem entre os participantes. Os textos lidos despertam seus pensamentos e palavras. Não porque esses textos evoquem situações próximas das que eles viveram. Aqueles que têm um efeito "reparador" são em geral até muito surpreendentes. Através de um conto ou poema qualquer escrito do outro lado do mundo, eles leem páginas dolorosas de sua vida de forma indireta, falam de sua própria história de outra maneira, e conseguem compartilhá-la.

Quais são as principais diferenças entre a leitura individual e a experiência coletiva que é a leitura mediada?

MICHÈLE: Há séculos a leitura é associada à imagem de um leitor — e mais ainda, talvez, de uma leitora — solitário e silencioso, numa intimidade autossuficiente. Isso pode contribuir para afastar da leitura pessoas que vivem em meios onde se dá preferência a atividades coletivas e onde o ato de se colocar à parte do grupo é visto como rude. As experiências de leitura compartilhada, ao contrário, podem facilitar a apropriação dos textos, desde que eles não sejam percebidos como algo imposto. O interessante nos casos que estudei é que eles se desenrolam num quadro coletivo, mas onde cada pessoa é objeto de atenção singular. Cada um é ouvido com atenção, disponibilidade e confiança em sua capacidade e criatividade. Os ritmos ou as culturas próprias a uns e a outros são respeitados, suas palavras recebidas e valorizadas. Esses jovens são frequentemente solicitados, e formados, para tornarem-se também mediadores de leitura para outros, como faz, por exemplo, o grupo A Cor da Letra, no Brasil. É uma forma coletiva, mas que dá lugar a vozes plurais, a uma escuta mútua, a singularidades. A leitura solitária não se opõe a esses pequenos grupos livremente constituídos onde o tempo de leitura e discussão é repartido e onde cada um se retira em seguida para sua casa, levando consigo fragmentos de páginas lidas e palavras compartilhadas. Tanto uma quanto a outra desenham espaços de liberdade e, às vezes, de resistência.

Segundo o livro, os mediadores veem seu trabalho como uma atividade "cultural, educativa e, em certos casos, política". Qual seria a dimensão política da difusão da leitura?

MICHÈLE
: Aqueles cujo trabalho acompanhei acreditam trabalhar por algo muito maior, que é de ordem cultural, poética, educativa e, em alguns aspectos, política. Eles não são ingênuos, sabem que a literatura não vai reparar as violências ou as desigualdades do $, mas observam que ela oferece um apoio notável para colocar o pensamento em ação, para provocar o autoquestionamento, suscitar um desejo, uma busca por outra coisa. E numa época em que os partidos políticos não conseguem fazer isso, a leitura compartilhada aparece como um meio de mobilizar as pessoas, de driblar a repressão à palavra e produzir experiências estéticas transformadoras (além de favorecer a aproximação da cultura escrita). Estes professores, bibliotecários, escritores, psicólogos, ou simples cidadãos, se engajam numa ampla partilha do texto, mas também na construção de uma sociedade mais democrática e solidária.

Alguns argumentos a favor da leitura de obras literárias fazem com que ela pareça mais uma obrigação ou uma necessidade do que um prazer. Como fazer esse trabalho de difusão e, ao mesmo tempo, preservar a dimensão lúdica da leitura?

MICHÈLE: Certos discursos de glorificação da leitura dão vontade de jogar videogame! E os discursos jamais fizeram alguém ler, tampouco as campanhas de massificação para "criar" ou "formar" leitores. Seja pai ou professor, quem diz que uma criança tem que ler (ou pior: que tem que gostar de ler!) faz da leitura um fardo ao qual ela precisa se submeter para satisfazer os adultos. O impasse está garantido se quem diz que "ler é um prazer" não tem nenhum gosto pela leitura: a criança vai sentir que a pessoa não está sendo sincera. O belo discurso transmite o contrário do que pretendia. Afinal, no fim das contas, por que alguém se torna leitor? Na maior parte do tempo, porque viu a mãe ou o pai mergulhado nos livros quando era pequeno e se perguntou que segredos eles podiam desvendar ali. Ou porque eles leram histórias em voz alta, dando à criança liberdade de ir e vir, sem conferir constantemente se ela tinha entendido bem. Ou ainda porque as obras que havia em casa eram assunto de conversas intrigantes ou divertidas. Em certas famílias, as chances de ter essas experiências vêm de nascença ou quase. Em outras, os livros evocam para os pais nada além de lembranças de humilhação e tédio. Junte-se a isso as dificuldades econômicas e a distância dos locais onde se pode encontrar suportes escritos. Nessas famílias, se as crianças ou adultos acabam lendo, e até vivendo a leitura com alegria, é graças a um encontro, ao acompanhamento caloroso de um mediador (professor, bibliotecário, amigo, assistente social...) que tem gosto por livros e sabe tornar esses objetos desejáveis, o que é uma arte. Essa arte passa por um trabalho sobre si mesmo, sobre sua própria relação com os livros, para que a criança e o adolescente não digam: "Mas o que ele quer, esse aí, por que ele quer me fazer ler?" É esta arte que está no coração das experiências que estudei e no coração do meu livro. Ela tem que ser apoiada, encorajada, e as iniciativas desses mediadores devem ser difundidas e multiplicadas, por uma vontade política, para que seja dada a todos, onde quer que vivam, uma chance de encontrar ecos de sua experiência humana, de descobrir outros mundos e de se apropriar realmente dos textos — o que é completamente diferente de aprender a ler.

terça-feira, 9 de março de 2010

Tzvetan Todorov: "Literatura não é teoria, é paixão"

Por Anna Carolina Mello e André Nigri - Bravo! - Março 2010


Nascido em 1939 em Sófia, na Bulgária, e naturalizado francês, o filósofo e linguista Tzvetan Todorov é um dos mais importantes pensadores do século 20. Traduzida para mais de 25 idiomas, sua obra inspira críticos literários, historiadores e estudiosos do fenômeno cultural do mundo todo. Em seu mais recente livro publicado no Brasil, A Literatura em Perigo, Todorov faz um mea culpa raro entre intelectuais. Ele diz que estudos literários como os seus, cheios de "ismos", afastaram os jovens da leitura de obras originais - dando lugar ao culto estéril da teoria. De Paris, ele falou a BRAVO! por telefone:

BRAVO!: Gostaria que o sr. falasse sobre o seu primeiro contato com a literatura quando criança, e como ela se transformou em uma paixão.

Tzvetan Todorov: Eu cresci na Bulgária durante a Segunda Guerra, quando quase ninguém vivia em Sófia, sob constante bombardeio. A maior parte da população vivia fora da capital, em apartamentos divididos por várias famílias. Dentro da coletividade em que habitávamos, havia um especialista em literatura. Foi ele que me ensinou a ler, antes que eu atingisse a idade escolar. Ele me incentivou a praticar a leitura nos livros infantis, e logo comecei a gostar dos contos populares. Apreciava especialmente as histórias dos irmãos Grimm e As Mil e Uma Noites. Essas obras faziam minha alegria. Eu já tinha um sentimento do enriquecimento pessoal que o contato com a ficção podia proporcionar.

Por que o contato com a ficção é tão importante?

Os livros acumulam a sabedoria que os povos de toda a Terra adquiriram ao longo dos séculos. É improvável que a minha vida individual, em tão poucos anos, possa ter tanta riqueza quanto a soma de vidas representada pelos livros. Não se trata de substituir a experiência pela literatura, mas multiplicar uma pela outra. Não lemos para nos tornar especialistas em teoria literária, mas para aprender mais sobre a existência humana. Quando lemos, nos tornamos antes de qualquer coisa especialistas em vida. Adquirimos uma riqueza que não está apenas no acesso às idéias, mas também no conhecimento do ser humano em toda a sua diversidade.

E como fazer para que as crianças e os jovens tenham acesso a esse conhecimento tão importante?

A escola e a família têm um papel importante. As crianças não têm idéia da riqueza que podem encontrar em um livro, simplesmente porque eles ainda não conhecem os livros. Deveríamos então ser iniciados por professores e pais nessa parte tão essencial de nossa existência, que é o contato com a grande literatura. Infelizmente, não é bem assim que as coisas acontecem.

Por quê?

Quando nós professores não sabemos muito bem como fazer para despertar o interesse dos alunos pela literatura, recorremos a um método mecânico, que consiste em resumir o que foi elaborado por críticos e teóricos. É mais fácil fazer isso do que exigir a leitura dos livros, que possibilitaria uma compreensão própria das obras. Eu deploro essa atitude de ensinar teoria em vez de ir diretamente aos romances, por que penso que para amar a literatura - e acredito que a escola deveria ensinar os alunos a amar a literatura - o professor deve mostrar aos alunos a que ponto os livros podem ser esclarecedores para eles próprios, ajudando-os a compreender o mundo em que vivem.

Ao comentar esse assunto no livro, o sr. fala em "abuso de autoridade". Poderia explicar melhor?

É um abuso de autoridade na medida em que é o professor quem decide mostrar aos alunos o que é importante, com base em um programa definido previamente pelo Ministério da Educação. E isso é sempre uma decisão arbitrária. Não temos o direito de reduzir a riqueza da literatura. O bom crítico - e também o bom professor - deveria recorrer a toda sorte de ferramentas para desvendar o sentido da obra literária, de maneira ampla. Esses instrumentos são conhecimentos históricos, conhecimentos linguísticos, análise formal, análise do contexto social, teoria psicológica. São todos bem-vindos, desde que obedeçam à condição essencial de estar submetidos à pesquisa do sentido, fugindo da análise gratuita.

Como conciliar esse desejo de liberdade num sistema em que o professor tem que atribuir notas, como ocorre no Brasil e na França?

Acredito que o essencial é escolher obras literárias que sejam, por sua complexidade e temas, acessíveis à faixa etária a que se destinam. Cabe ao professor mostrar o que esses livros têm de enriquecedor para os alunos, levando em consideração a realidade deles. O importante é não ter medo de estabelecer pontos em comum entre o presente dos alunos e do sentido dos livros.

O escritor italiano Umberto Eco fala que o livro, ao lado da cadeira, é o objeto de design mais perfeito criado pela humanidade. Num momento em que se questiona isso, o senhor vê futuro para o livro?

É verdade que hoje lemos muito diante da tela, mas não acho que o livro vá desaparecer. Ele estabelece uma relação de possessão e de interiorização que nós não podemos estabelecer com algo tão imaterial quanto o texto na tela do computador. Claro que eu mesmo, quando busco uma referência, o faço facilmente diante da tela. Mas se eu desejo me embrenhar em um livro, se eu quiser me render a seu interior, é preciso que seja com o objeto "livro". A isso ele se presta maravilhosamente.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Memórias de João Cabral de Melo Neto





Documentário produzido pela editora Alfaguara para comemorar o relançamento da obra do poeta João Cabral de Melo Neto, com depoimentos de Luis Fernando Verissimo, Chico Buarque, Lázaro Ramos, Ferreira Gullar, Adriana Calcanhotto, Carlos Heitor Cony, Adélia Prado e outros.

No dia 3 de marcço foi aberta, no Centro Cultural da Justiça Eleitoral (Rio de Janeiro), a exposição "Um poema por dia", dedicada ao poeta. Saiba mais.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Mais do que dar dinheiro a pobres, é preciso educar, afirma Heckman

O GLOBO – 20.12.09

Autor(es): Agencia O Globo


Para o americano James Heckman, de 65 anos, prêmio Nobel de Economia de 2000, é preciso fazer mais do que mandar crianças para a escola a partir dos 6 anos de idade. Segundo ele, enquanto não se der maior atenção à primeira infância — de zero a 3 anos —, em especial nas famílias carentes, as desigualdades socioeconômicas continuarão se perpetuando.

Em visita ao Rio semana passada, ele explicou a sua tese ao GLOBO.

José Meirelles Passos O GLOBO: De acordo com as suas pesquisas, o nível de renda de uma pessoa, o seu êxito no trabalho, e até mesmo a possibilidade de que venha a cometer um crime estão associados à educação que ela teve logo na primeira infância e aos estímulos recebidos — ou não — de seus pais. Ou seja, quem não teve bons pais está condenado ao fracasso?

JAMES HECKMAN: Sim e não. Sim, no caso de não ter tido, a tempo, algum tipo de ajuda externa que possa remediar a situação. E não, se foi beneficiado com um auxílio desse tipo com base num programa bem estruturado.

O GLOBO: O senhor se refere a algum programa público?

HECKMAN: Pode ser privado. Mas eu acho que tal responsabilidade cabe, primeiramente, ao governo. Todo cidadão tem direito à saúde e à educação. Mas, no geral, o Estado acha que basta cuidar das pessoas a partir dos 6 ou 7 anos, colocando-as na escola. Sabemos cientificamente que deve-se dar atenção a elas com maior ênfase antes dos 3 anos de idade. E, de preferência, desde a sua concepção.

O GLOBO: Isso, então, implicaria cuidar também da saúde das mães...

HECKMAN: Exatamente. E em especial de sua nutrição. E depois, quando nasce o bebê, oferecer à família um programa que ensine os pais a serem pais de verdade. Que aprendam a estimular as crianças, lendo para elas, expondo-as à música, aos jogos, participando de brincadeiras, de atividades lúdicas.
O GLOBO: Isso quer dizer que o ideal é criar um programa específico para os pais?

HECKMAN: Para os pais e para as crianças. Ensinar aos adultos a serem pais melhores, e dar às crianças condições de adquirirem a vantagem que as demais, de famílias mais bem educadas, já têm de nascença. Pois é isso que faz a diferença. É isso que causa a grande divisão entre os que têm e os que não têm boas chances na vida. É preciso ensinar interação às famílias carentes; implantar um programa que possa transformar a capacidade social e emocional de toda a família.

O GLOBO: O senhor já constatou isso na prática, não?

HECKMAN: Sim. Criamos um programa de quatro anos (1961-1965), com um grupo de 123 crianças de idade pré-escolar numa cidade em Michigan. Cada classe tinha de 20 a 25 alunos, com 3 ou 4 anos de idade. As aulas eram diárias e duravam duas horas e meia. Ali as crianças eram estimuladas a interagir com as outras.

O GLOBO: Os pais delas participavam do programa?

HECKMAN: Dávamos apoio especialmente às mães, pois são elas que passam mais tempo com os filhos. As professoras visitavam as casas delas uma vez por semana e ficavam lá durante uma hora e meia, conversando, fazendo com que as mães se envolvessem no processo de educação dos filhos. As professoras também tinham o cuidado de ajudar em quaisquer outros problemas familiares.

O GLOBO: E os resultados?

HECKMAN: Eles comprovaram as nossas expectativas de que os cuidados intensos antes dos 3 anos de idade são essenciais para o bem-estar futuro de todos. Temos certeza disso porque, ao final daqueles quatro anos, cada família continuou tocando a vida por conta própria. Mas continuamos acompanhando o seu desenvolvimento, registrando o seu cotidiano. Aquelas crianças estão com 50 anos agora.

O GLOBO: Uma coisa é fazer uma experiência com um grupo pequeno; outra é implantar um programa que atinja famílias carentes em todo o país. Isso seria factível? Não seria muito caro um projeto desses?

HECKMAN: É claro que é possível implantar algo desse tipo em larga escala. E, sim, isso exige grandes investimentos. Mas eles dão um retorno fabuloso. A experiência mostrou que, para cada dólar aplicado, a sociedade ganhou nove. É preciso ter consciência de que a família tem um papel fundamental no bem-estar de uma sociedade. E, portanto, uma boa política de família acaba se tornando, na prática, uma boa política econômica.

O GLOBO: Pelo visto não bastaria apenas um plano específico na área da educação. Ele teria de envolver outros setores do governo, não?

HECKMAN: Trata-se, na verdade, de um programa integrado. Não pode haver boa educação sem que se cuide, ao mesmo tempo, da saúde. E não se pode bancar iniciativas nessas duas áreas sem uma boa política econômica. A questão central, que temos de fazer hoje, é a seguinte: qual é a maneira mais efetiva de se promover grandes realizações e reduzir a desigualdade? E a resposta é basicamente uma só, sejam quais forem as iniciativas a serem tomadas: é preciso educar no sentido completo, fundamental.

O GLOBO: Num país como o Brasil, em que os bolsões de pobreza ainda são grandes, a perspectiva de um grande número de famílias estar criando filhos para o fracasso parece se perpetuar, uma vez que os pais também são originários de famílias de educação baixa?

HECKMAN: Não necessariamente. É certo que um baixo índice de paternidade, ou seja, quando se tem pais que não tiveram uma educação adequada, a tendência é de que as gerações seguintes — salvo algum milagre — perpetuem esse ciclo. Por isso mesmo é preciso conscientizar a todos, e em especial aos governos, de que a atual noção de pobreza está mal definida.

O GLOBO: Como assim?

HECKMAN: Em geral se aceita o conceito de que pobreza é falta de renda. E, por isso, há governos que acham que dar mais dinheiro aos pobres resolve o problema. O essencial, a esta altura, é perceber a necessidade de se fazer mais do que isso: é preciso educar.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Mona Dorf entrevista Luiz Alberto Mendes


O escritor e colunista Luiz Alberto Mendes descobriu os livros quando cumpria pena de mais de 30 anos de prisão. Foi consultor do Instituto Ecofuturo para a implementação de uma biblioteca na Penitenciária de Bauru II, da qual já falamos AQUI. Entrevista concedida à jornalista Mona Dorf - programa Letras e Leituras da Rádio Eldorado.



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quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Memórias da Literatura Infanto-juvenil: Especial Monteiro Lobato

O Museu da Pessoa criou o site Memórias da Litertura Infantil e Juvenil, reunindo histórias de 43 pessoas importantes para este gênero literário. No vídeo abaixo, quatro escritores homenageiam o mestre Monteiro Lobato.
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"O que ele abriu na minha cabeça foi a possibilidade de crianças tomarem conta do mundo”.
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(Luiz Antônio Aguiar)
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"Quando li Reinações de Narizinho, minha orelha ficava vermelha, de tanto que eu me entusiasmava com aquele livro!"
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(Marilda Castanha)
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"As crianças dele não eram boazinhas: elas ousavam! E os adultos iam atrás".
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(Pedro Bandeira)
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"Quando eu pego esses volumes [da coleção completa de Lobato], eles vêm com o cheiro da minha casa, com o cheiro da minha infância".
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(Fanny Abramovich)